Arquivo para a categoria 'Crônicas'

28
abr
12

Palavras incômodas

Vivemos no piloto automático, mas não deveríamos. Geralmente, achamos que uma vida no piloto automático é mais segura, mais tranquila. Do trabalho para casa e da casa para o trabalho por dias, semanas, meses, anos. Não permitimos mudanças, não nos permitimos mudar. É mais fácil assim, é cômodo.

Pois falta justamente o incômodo. Nós precisamos ser incomodados. A cada ano, a cada mês, a cada semana, a cada dia. O incômodo nos faz pensar, repensar. Ao sermos incomodados, reconsideramos ideias, reorganizamos ações, mudamos de rumo. Uma vida sem incômodo é vida que não evolui. Uma pessoa sem ser incomodada permanece a mesma dia após dia, ano após ano. O piloto automático nos leva sempre para o mesmo lugar.

Pare. Olhe. Não siga em frente. Mude de caminho, faça diferente, faça a diferença. Considere novas pessoas, novas possibilidades. Abra o leque. Dê um jeito de fazer de outro jeito. Gaste tempo com o que vale a pena. Poupe palavras, exagere em ações. Não desista antes de tentar. Tente até conseguir. Que este texto seja suficientemente incômodo para tirá-lo do piloto automático.

24
abr
11

Porque chocolate e cinema são coisas irresistíveis

Em um dia como hoje, nada como unir duas de minhas grandes paixões: cinema e chocolates.  Se saborear uma delas já é ótimo, as duas juntas, então, melhor ainda!

Para quem não sabe, há um filme que consegue fazer isso brilhantemente. Dirigido por Lasse Hallström e com Juliette Binoche e Johnny Depp no elenco, Chocolate é, talvez, o filme que mais desperta o paladar dos chocólatras mundo afora.

Lembro-me como se fosse ontem do dia em que fui assistir ao longa-metragem no cinema. Acompanhado de minha mãe – também uma chocólatra irreparável – mal cheguei na bilheteria e já fui seduzido pelo cartaz de Chocolate, que mostrava, na parte superior, a protagonista ao lado de seu par romântico. Este, por sua vez, estava prestes a saborear um bombom, que segurava com os dedos.

No filme – que retrata a dureza com que uma pequena cidade francesa acolhe a dona de uma loja de doces – há chocolate para todos os gostos, desde bombons com ingredientes mágicos até coberturas para pratos salgados. Uma obra deliciosa, que vale a pena ser saboreada nessa páscoa.

27
mar
11

O maior de todos os vícios

Qual é o sentido da sua vida? Simplificando a pergunta: pelo que você vive? Por uma carreira brilhante, um carro possante ou uma pessoa importante? Por que você, diariamente, escolhe continuar se arriscando em um mundo cada vez mais bipolar, que faz questão de alegrar a sua vida ao mesmo tempo em que te bola uma emboscada? Pois afirmo que não é pelo dinheiro, muito menos pela carreira. É pelo gostinho de se relacionar com pessoas tão complexas e maravilhosas quanto você.

O mundo gira, sim, em torno de relacionamentos. Sempre foi assim, e sempre vai ser. Filmes e telenovelas são feitos para que, afinal? Para falar de conquistas profissionais, talvez? Sim, por que não? Conquistas que são promovidas por pessoas. E a serventia de uma carreira empresarial, qual seria? Oferecer esse produto ou aquele serviço, obviamente. Para quem? Pessoas.

E elas são de todos os tipos, cores e nacionalidades. Se um dia fazem com que você se aproxime, no outro o afastam. Se uma hora estão de excelente humor, na outra já desabam de vez. E como se não bastasse isso, algumas até exigem que você vá junto. Mesmo assim, entrar em contato com pessoas é inevitável. Estar ao lado delas é uma necessidade, tanto quanto comer ou dormir.

No final das contas, meu amigo (a), o ser humano é o maior vício do homem. Só isso explica a capacidade que ele tem de sair de relacionamentos desastrosos e partir para outros sem pensar duas vezes. Só isso explica a vontade de saídas constantes com amigos que se regeneram a cada aniversário.

Cada vez mais, concordo que pessoas são como a música interpretada por Gal Costa: nosso bem e nosso mal. Duas faces de uma moeda que jamais pensamos em tirar da carteira.

Crédito do vídeo: cleicianenza

10
mar
11

“No meio do caminho, tinha uma pedra”

Não há como fugir dos problemas. Por mais que o caminho pareça tranquilo, sempre nos deparamos com pedras – de todos os tipos e tamanhos. Algumas já são visíveis de longe, e, por isso, podem ser contornadas. Outras são praticamente invisíveis, mas causam tombos desastrosos.

Certa vez, a personagem de uma reportagem que produzi para o curso de Jornalismo me alertou sobre pedras no caminho. Com uma alegria contagiante e uma energia que se percebia há quilômetros de distância, ela me disse que, por trás de cada conquista valiosa, há uma trajetória dura de trabalho e perseverança. O conselho não saiu mais da minha cabeça. A cada decepção, lembro dele. A cada vitória, também.

A verdade é que os problemas estão aí para nos beneficiar. Depois de um, dois, três tombos, não somos mais os mesmos. Nos transformamos em seres humanos melhores, mais evoluídos. Além disso, o acúmulo de tombos faz com que criemos uma resistência dentro de nós. Um mecanismo poderoso, que, depois de cada entrave, nos impulsiona ainda mais a vencer. Até porque, cá entre nós, nenhuma conquista teria graça se não existissem as famosas pedras no caminho.

06
mar
11

Mudar é viver

Assim que cheguei, percebi: o portão havia mudado de cor e tamanho. Não era mais vermelho, e havia crescido um bocado. Segundo os meus avôs, a decisão foi uma medida de segurança. Hoje em dia, portão alto é o requisito mínimo para proteger uma casa dos perigos da modernidade.

O portão mudou, como mudamos todos. Na época em que minha mãe e meus tios não tinham mais do que um metro de altura, era bege, apagado. Anos depois – vestido de vermelho – ele observou de perto as invenções de quatro crianças unidas pelo parentesco e pela imaginação fértil. Imaginação essa que pregava que a casa da vó podia ser tudo – cenário de filme, cidade e até pista de corrida – menos a casa da vó.

Com o cessar das gritarias e aventuras radicais, o portão passou a ter função de – pasmem! – portão. Quando os adolescentes resolviam dar uma passada na casa dos velhos, ele os acolhia de braços abertos. Quando saíam – depois de visitas cada vez mais rápidas – se despedia timidamente.

Hoje mal os vê. E quando os vê, estão acompanhados de outras pessoas. Não são mais só os quatro. Agora são seis, oito, e se organizam em pares. “É a idade”, diz a vó. E é mesmo. Se ela não voasse, não haveria sequer uma lembrança do tempo em que a vida era mais feliz porque passávamos as férias na casa do portão vermelho.




Raphael Moroz (o bloggeiro)

Jornalista (por formação) apaixonado por cinema, televisão, literatura e fotografia. E por pessoas, de todas as cores, tamanhos e nacionalidades.

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